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Por Helena Dias
Introdução
"Até quando pode a memória, e quanto pode, sou o actor e o espectador cúmplice de uma vida perturbada, dramática e irónica."
Herberto Helder, in Photomaton & Vox Não há história que se esgote na narração de factos cronologicamente encadeados, na rememoração de nomes e no desenrolar de situações. Nem a História se permite aprisionar em imagem e texto, como os aqui compostos em livro. Mais difícil ainda se torna cumprir o objectivo de contar a história de um edifício se o edifício de que se trata é um Teatro, pois é este, por natureza, um espaço do qual se indissociam aspectos de matriz física e psicológica, metafísica, ou sagrada e profana, em que se jogam o real e o imaginário, em que se vive e se cria cultura. Este Teatro atreve-se a mais e escapa, inclusive, à apropriação por deícticos que exprimam proximidade espácio-temporal: o Teatro Micaelense não foi sempre esta casa que hoje celebramos. Teve outro corpo, outra topografia, inscreveu-se no tempo de dois séculos, de forma descontínua... Baralhou e tornou a dar, o que faz dele próprio um actor, mestre na arte do fingimento, portanto. Tendo habitado dois corpos distintos, o Teatro Micaelense foi a alma singular em que se reuniu o conjunto de aspirações dos habitantes de Ponta Delgada. Será esta alma, mais ainda do que a estabilidade do nome, o que lhe confere unidade. E é por causa dessa unidade que aqui entendemos o Micaelense como sendo um único e o mesmo Teatro, capaz de um jogo de duplos, como num jogo teatral. Assim entendido, todas as abordagens nos diferentes capítulos assumem este pressuposto. O texto desenvolve-se em dois núcleos: o primeiro narra a história dos esforços de construção e contínua modernização do Teatro Micaelense e de momentos particularmente significativos, como os das suas festas inaugurais e momentos terminais; o segundo faz uma amostragem da vida que se construiu no espaço interno do edifício, através das manifestações artísticas que lá ocorreram, bem como reflexos das impressões que estas causaram no público, expressas através da opinião e crítica aos espectáculos, publicada na imprensa regional. Esta não será, pois, uma narrativa de quem acrescenta um ponto, mas é, antes, contada na certeza de se estar em dívida para com o passado do Teatro. Pretende-se com este livro oferecer ao Micaelense mais um elemento integrante da sua já longa história e, porventura, buscar alguma solidez, que lhe subtraia o passado à rarefacção do tempo. Feitas as contas, teremos razões de sobra para que se afirme que esta não é a história do Teatro Micaelense. Essa ultrapassa tudo o que aqui se escreve e mostra, e está disseminada por cada um dos que por aqui passaram e passarão, como construtores, técnicos, intérpretes e espectadores, e que, de cada uma das experiências, guardem memórias e cumplicidades mais ou menos "perturbadas, dramáticas e irónicas", porque só assim se cumpre um Teatro.