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O nascimento: primeiros projectos e primeiros trabalhos Mergulhemos no século XIX, na conturbada segunda metade do século, que obriga a desterros e exílios das vozes dissonantes da época, e aí encontraremos as raízes do Teatro Micaelense. A época era, recorde-se, a da instabilidade que seguiu as lutas entre liberais e miguelistas, primeiro, entre setembristas e vintistas, depois, forçando a vinda até aos Açores de ilustres pensadores nacionais. A presença de Almeida Garrett ou de António Feliciano de Castilho, que habitou em S. Miguel, de 1847 a 1850, ou o regresso de Ernesto do Canto fazem-se então sentir de forma apreciável, influenciando positivamente a vivência cultural dos habitantes que com eles privaram e faz deles motores do que viria a ser o empreendedorismo levado a cabo com a intenção de "civilizar" a vida nas ilhas, nomeadamente, em S. Miguel. Castilho, o poeta e dramaturgo romântico, de formação árcade e clássica, que dissera: "sendo hoje a utilidade do Teatro tão geralmente conhecida, quanto lamentado pelos bons portugueses o atraso da nossa poesia dramática", escreveu, em Ponta Delgada, aquela que viria a ser a sua maior criação dramatúrgica - Camões (1849), uma adaptação de um drama francês. Antes, já desde 1836, Almeida Garrett iniciara o quadro de uma reforma estrutural, que, conforme citação do historiador do Teatro Português, Ivo Cruz, serviria para "definir o hábito e, depois, a necessidade do teatro como meio de civilização." É neste quadro que se começam a traçar os rudimentos do que viria a ser o Teatro Micaelense. A construção de um Teatro em S. Miguel virá a ser o resultado final da fundação, em 1848, por iniciativa de António Feliciano de Castilho, da Sociedade dos Amigos das Artes e Letras, com o objectivo de dotar a cidade de Ponta Delgada de um espaço que acomodasse uma escola, secretaria, teatro, filarmónica, museu e outras actividades culturais. O plano estender-se-ia, depois, a outras zonas da ilha de S. Miguel, na intenção de se promover a educação das crianças e do povo em geral, para que melhor pudessem "servir seus próprios interesses e os da pátria". Para isso, o plano didáctico delineado era abrangente o suficiente para incluir matérias como primeiros rudimentos de moral, higiene, o ensino da música vocal, anatomia e fisiologia, agricultura, ginástica, além das disciplinas de história, geografia, aritmética... O edifício a construir - então designado Solar, já que o plano inicial não previa uma utilização limitada às funções de teatro - viria a ser erigido sobre as ruínas da profanada igreja de S. José, na área onde actualmente se encontra o Jardim de Sena Freitas. As ruínas da igreja são concedidas à Sociedade das Artes, por intervenção de Feliciano de Castilho, que usa da influência de que goza em Lisboa, intercedendo junto do Governo. Faltavam, no entanto, os meios para que se empreendesse a obra. Para a construção do "edifício da instrução, da religião e da moral", ou "grande obra da civilização e da caridade", como se lhe referem as actas da Assembleia Geral da Sociedade das Artes, seriam levados a cabo peditórios por toda a ilha, com início marcado para o dia 28 de Abril de 1852. Castilho compõe um hino em que se exorta ao bem intrínseco e à caridade, tanto no que respeita ao bem dirigido aos outros, como na perspectiva do bem para o próprio, do ponto de vista cristão da salvação da alma e do temor a Deus. O Cântico da Caridade viria a ser musicado e animaria a comitiva, que, em procissão, percorreria a ilha, pedindo dinheiro ou géneros, que podiam incluir horas de trabalho. Todavia, em 18 de Abril de 1852, um violento terramoto causa elevados prejuízos por toda a ilha e obriga a uma reorientação das prioridades. O peditório não se realiza e esfriam-se os entusiasmos. Castilho tinha, entretanto, regressado a Lisboa, donde saberá das manifestações de apreço que os micaelenses lhe dirigem, reconhecidos pelo "grande impulso que ele dera à civilização desta terra, o maior da idade moderna". A Sociedade das Letras e Artes empenha-se na construção de escolas e toma posição sobre o destino a dar às ruínas da igreja de São José, em Dezembro de 1856. Para o efeito, constitui-se uma comissão que conclui que "quanto à utilidade que deve resultar da construção dum teatro, que seja digno das nossas aspirações, e que dê um testemunho do estado da nossa civilização, a comissão entende que se não pode contestar. E quanto ao projecto de construir este teatro na indicada área, julga que, tendo ela sido concedida para esta Sociedade para idêntico fim, e que não tendo nós, na actualidade, os fundos necessários para o conseguirmos, devemos, nesta reunião, manifestar os mais sinceros desejos para realização desta utilíssima empresa (...) declarando que, pela nossa parte, estamos prontos a contribuir com todos os recursos de que podemos dispor para a sua pronta execução." Contudo, profundamente marcada pelos ideais de Castilho, a Sociedade das Letras e Artes retoma a ideia inicial de que se aliem num mesmo espaço as finalidades educativas e recreativas. Lê-se no parecer que é fundamental aguardar a elaboração e discussão do projecto, bem como que se verifiquem os custos, "para então se tomar uma resolução definitiva sobre este objecto, com condições vantajosas, entre as quais, se considera essencialíssima a de que, no mesmo edifício, se deva construir uma sala própria para uma aula, que admita pelo menos cem alunos, e um gabinete que sirva para uma secretaria" para os usos da Sociedade das Artes. Tomavam-se estas decisões em Janeiro de 1857. Esta condição essencial acabará por não se cumprir, mas constitui-se a primeira direcção da Sociedade Teatral Micaelense, que será composta por: João José Silva Loureiro, Ernesto do Canto, Jacinto Soares de Albergaria, Jacinto de Teves Adam e Capitão Luís de Bettencourt Corte Real. Em Abril de 1859, sabia-se que o arranque da construção do Teatro requeria a quantia de 12 contos, estando então reunidos nove. Notícia do jornal Açor, de Junho do mesmo ano, dá conta de que já chegara de Lisboa o plano para o grande Teatro, elaborado por Augusto Serra, e que se orça a sua despesa em 8.550$000 reis fortes. A 23 de Fevereiro de 1861, informa-se que chegara de Lisboa a planta do Teatro, com desenhos de pormenor de Herculano Maria Gomes Machado. Dela se diz, no mesmo jornal: "Já vi o risco para o novo teatro. Dizem estar orçado em 17 contos reais, mas há-de ser um edifício majestoso." Em 1862, uma nova Comissão providencia a angariação de mais accionistas e consegue novas participações financeiras, das quais as mais vultuosas foram as do Visconde da Praia, com um conto, José Jácome Correia e José do Canto, com 500 mil reis cada, seguindo-se-lhes o Barão das Laranjeiras, com 240 mil reis e o Barão da Fonte Bela com 120 mil reis. As contas iam sendo actualizadas e tornadas públicas à medida que a construção progredia e, em Dezembro de 62, uma reunião de accionistas tomava a resolução de se contrair um empréstimo de seis contos de reis, "para que fique em estado de servir para o fim a que se destina": concluíra-se que as obras se cifrariam em cerca de 21 contos. Após a completa demolição da igreja, a comissão procede a contratos de empreitada para os trabalhos de lavoura de pedra, nomeadamente para portadas, chaparias, janelas, grandes e pequenas. Em Novembro de 1862, já se colocavam barrotes e se preparava a cobertura com telha. Em 1864, a comissão encarregada das obras anuncia que recebe propostas até ao final de Março para contratar as obras de armação do café, com um ventilador, e da armação dos camarins. Chegou à ilha, em Setembro de 1864, o pintor para o teatro, que também se encarregaria de outras obras de palco. Hércules Lambertini era um afamado cenógrafo, residente no Porto. Com ele trazia um colega de Lisboa, Cândido Xavier, diplomado pela Academia de Belas Artes de Lisboa e pelo Conservatório de Teatro, que fixa residência em Ponta Delgada. A supervisionar as obras, graciosamente, o engenheiro Ricardo Júlio Ferraz, antigo Director de Obras Públicas do Distrito. Edificado, o Teatro impunha-se aos visitantes, conforme relato de Estácio da Veiga, em artigo inserto no jornal literário Esmeralda Atlântico, nº 2, de Maio de 1864: "Três excelentes obras estão actualmente em construção, um teatro, uma casa penitenciária e uma doca. (...) O teatro, conquanto não manifeste exteriormente uma rigorosa elegância, tem contudo proporções internas para poder servir de instrutivo recreio à população da cidade, e concluído ele, virá a ser um dos melhores pontos de reunião da mui distinta sociedade micaelense". Então, a cidade era descrita como vivendo um grande movimento comercial no seu porto, um apreciável progresso agrícola, bem dotada de serviços e habitada por gente que o autor classifica como "de génio activo e laborioso". Isto, enquanto na ilha grassava uma epidemia de febre tifóide, valida pela caridade e, como descreve Supico, em Escavações, tratada com "sangrias gerais repetidas, dieta e bebidas refrigerantes, acrescentando a isto o uso do almíscar em dose elevada e por aturado tempo." Contabilizavam-se mortos e edificava-se o futuro.