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O incêndio: uma vida que se esfuma

Numa estranha ironia, um peculiar anúncio publicitário da época, publicado no Açoriano Oriental, em Janeiro de 1930, parecia querer prenunciar a desgraça que viria a acontecer no mês seguinte. Lia-se então:

Domingo, no intervalo do espectáculo, no Teatro Micaelense, foi notado que do salão superior saía uma grande nuvem de fumo, pelo que correram para ali numerosas pessoas que ficaram abismadas ao saberem ser o mesmo proveniente dos muitos espectadores que fumavam os famosos cigarros BOGDNAALL, que vende a Tabacaria Autonomista, na Rua do Açoriano Oriental.

O incêndio que destruiria por completo o Teatro ocorre poucos dias depois, a 9 de Fevereiro de 1930.

Do impacto que a destruição teve na população, os jornais dão relato vívido. Encimados por títulos como "Mês Fatídico - Arde o Nosso Templo de Arte, o Teatro Micaelense", no Açoriano Oriental, ou "Perda Micaelense", no Diário dos Açores, as notícias avançam pormenores e detêm-se nas emoções.

"Cheiro a madeira queimada e uma leve coluna de fumo divisámos, sem que jamais nos passasse pela mente ter de ver, quase como à velocidade de um raio, o tremendo desencadear da catástrofe." Ou, "o Teatro Micaelense, o velho e aristocrático Teatro Micaelense, a casa de espectáculos de mais gloriosas tradições dos Açores, a que vêm ligadas as mais gratas recordações das últimas gerações, acaba de ser aniquilado por um pavoroso incêndio, que alvorotou toda a cidade, causando a todos a mais pungente mágoa."

Por volta das 10 horas da noite, estando o operador cinematográfico e um ajudante a enrolar os filmes do espectáculo de domingo, num compartimento anexo à cabine, faíscas lançadas pelo motor eléctrico em acção alcançaram o filme. Este era, de resto, um tipo de incêndio frequente nas casas de espectáculos, uma vez que, até aos anos 50, as películas continham como suporte químico o nitrato de celulose, material fácil e perigosamente inflamável. O incêndio das películas rapidamente se comunicou às madeiras do compartimento, e deste, com estranha violência, ao resto do edifício. Em pouco mais de uma hora, o Micaelense estava invadido pelas chamas, quedando sepultado nos seus escombros.

Para os socorros, acudiram os Bombeiros Voluntários com todo o seu material, assim como uma força da Marinha da Guarnição, logo que ouvido o sinal de alarme, que a Polícia fazia soar nas torres da cidade. Só pelas três horas e meia da manhã se davam por terminados os trabalhos de combate às chamas. Antes, feriram-se três marinheiros e foi salva a esposa, acamada, do fiscal do teatro, que residia nas dependências do Micaelense.

A dimensão do incêndio, a violência do fogo e a altura das chamas, ameaçaram os edifícios circundantes, um dos quais a repartição concelhia de Finanças, o que obrigou a que, como medida de prevenção, os arquivos tivessem sido conduzidos para a polícia. À voragem das chamas apenas escaparam os camarins, o foyer e o café que lhe ficava anexo. Do mobiliário do Teatro, parte foi salvo, mas ficou grandemente danificada. Os prejuízos foram avultados, dado que o Teatro apenas estava seguro em 100 contos fortes, quantia muito inferior ao seu real valor.

No rescaldo, procuram-se culpas e sobram as críticas, que, de curioso, têm o tom da actualidade. Falta de fiscalização, falta de água, deficiências do material, défice de formação dos operacionais são explicações avançadas na imprensa para o desfecho trágico: "Contra o indiferentismo que por vezes se assinala nas coisas colectivas (...) durante meia hora que no local nos demorámos e onde muita gente havia a trabalhar com verdadeira abnegação, não houve forma alguma de acudir com uma pinga de água, por ter havido engano no manuseamento das torneiras", lia-se no Açoriano Oriental, de 15 de Fevereiro. Ou, no Diário dos Açores do dia 11: "... a água, porém, chegou tarde e em quantidade insuficiente, o que, somado ao estado do material de incêndio, que some metade da água, deu em resultado o reconhecer-se, desde logo, a absoluta impossibilidade de salvar o edifício. Culpa de quem nem sequer sabia onde funcionavam as bocas-de-incêndio existentes no Teatro, nem como aproveitar-se das 6000 pipas de água em depósito..."

A dor sentida e a importância da casa que era o ponto de reunião da aristocracia eram, assim, descritas por M. Ferreira d'Almeida, no Açoriano Oriental: "Milhares de pessoas assistem, confrangidas, ao desmoronar rápido da mais valiosa jóia artística dos nossos antepassados. (...) Confrangeu-se-nos o coração ante um tal espectáculo e, como a nós, a dezenas de pessoas marejaram-se-lhes os olhos de lágrimas de sentido pesar. (...)

O fogo, esse ladrão que nada deixa quando em casa nos entra, quis-nos dar esse desgosto, a nós, e a toda a população micaelense, porque estamos certos que ninguém haverá que não deplore com verdadeiro sentimento essa perda, que só um punhado de boas vontades e o sacrifício do público poderá restaurar, e deve restaurar, para honra das tradições micaelenses e de uma população que não só quer "fitas", mas que também sabe apreciar a divina Arte de Talma."

As proporções do incêndio no Micaelense fazem despertar para a necessidade de fiscalizações competentes, o que acaba por levar ao encerramento do Coliseu Micaelense, até que se verificasse a satisfação de garantias de segurança.

Inconformado, Ferreira d'Almeida lançava o desafio da reconstrução imediata: "(...) e, se por um acaso, entre os actuais accionistas do Teatro Micaelense, não houver quem se arroje a tão avultada empresa, que se abra ao público uma lista para novos accionistas, porque temos a plena certeza de que ela encontrará na população desta ilha o melhor acolhimento." A certeza, porém, não viria a ser confirmada.

O repto da reconstrução, lançado em 1930, ficaria a habitar as mentes e os corações dos habitantes de Ponta Delgada. Contudo, a impossibilidade de se reunirem as verbas necessárias à reconstrução do Teatro levaria a que tivessem que passar dezasseis anos até que o sonho se concretizasse.

Durante a década de 1930, foram várias as tentativas de venda de acções por parte da Sociedade Teatral Micaelense, de modo a que se pudesse levar a cabo a reconstrução do Teatro. A Assembleia Geral, reunida dias após o incêndio, delibera a emissão de 24 mil acções, ao preço de 50$00 cada e que se mande chamar um arquitecto português de reconhecido mérito para delinear o projecto da reconstrução do Teatro. Decide-se ainda pela reconstituição, quanto possível, do antigo aspecto do Teatro Micaelense, conservando-lhe a fachada.

Numa outra reunião da mesma comissão, decidiu-se confiar a arquitectos franceses, os irmãos Perret, o projecto da reedificação, ficando definido que o Teatro passaria a ter uma lotação de 1500 lugares - o dobro da anterior. Estava aberta a inscrição pública de acções na firma João de Melo Abreu, mas, ao fim de seis meses, não se contavam duas mil acções subscritas.

Com a soma necessária às obras a não ser atingida, em Novembro de 1931, dá-se início à demolição dos escombros e, em Janeiro do ano seguinte, a comissão decide pelo arrasamento das paredes, encomendando ao francês Lefranc um novo projecto. Não seria ainda esta decisão coroada de êxito. No local, acabará por ser construído o Jardim Sena de Freitas e encerrada a intenção de reabilitação do malogrado Teatro Micaelense. Rapidamente, desaparece em cinza e fumo a sua primeira vida. E assim, durante quase vinte anos, se manteria, a esquecer-se de si, a alma do Teatro Micaelense.