


| Setembro / 2010 | ||||||
| Dom | Seg | Ter | Qua | Qui | Sex | Sáb |
| 1 | 2 | 3 | 4 | |||
| 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 |
| 12 | 13 | 14 | 15 | 16 | 17 | 18 |
| 19 | 20 | 21 | 22 | 23 | 24 | 25 |
| 26 | 27 | 28 | 29 | 30 | ||


Mais que um corpo importante na estrutura da cidade de Ponta Delgada, o Teatro Micaelense, pela forma como se instalara nos corações dos habitantes, provou ser uma ideia sólida, síntese de um conjunto de aspirações de progresso e cultura. E se só as dificuldades económicas obstaram à reedificação imediata do edifício incendiado, os entraves foram elididos no exacto momento em que surge a capa-cidade financeira para a nova construção, o que vem a acontecer dezasseis anos depois da perda que se julgara irreparável. Em 1946, perante os avultados lucros da Companhia de Navegação Carregadores Açorianos, o Conselho de Administração desta empresa decide erguer um teatro - uma decisão ovacionada na sessão camarária do dia 11 de Fevereiro, em que o anúncio foi feito por Francisco Luís Tavares, e logo apoiada por toda a população. Lembrando a época da construção do primeiro edifício, o Teatro Micaelense ressurgirá, no início da década de 50, numa altura de grandes construções na cidade de Ponta Delgada: inaugura-se o Campo de Jogos Marquês de Jácome Correia, o primeiro edifício escolar do Plano dos Centenários, rasga-se a Avenida Marginal... A cidade arranja-se para que lhe seja devolvido o seu Teatro e o Teatro virá mudar-lhe a face. O imóvel tornou a cidade mais desafogada, quer pelo alargamento da Rua e da Travessa de S. João, quer pela abertura de duas ruas circundantes, instala-se no local de um antigo convento de freiras de S. João Evangelista, que se encontrava abandonado desde 1866, tendo, posteriormente, sido convertido em quartel de infantaria. A portaria, sobreposta por janelas de boa cantaria, convertera-se então em porta de armas, ou porta de polícia. O coro baixo, assente sobre um depósito de ossadas humanas, e o coro alto serviam de aquartelamento, tal como o resto do edifício, e viam-se ainda nas paredes da igreja as marcas dos azulejos que aí existiram. O anúncio da construção do Teatro desperta o interesse naquele edifício, que, por intervenção do então Ministro da Guerra, Santos Costa, vem a ser cedido ao município pelo Estado, assim como é consentida a demolição do edifício do Distrito de Recrutamento e Reserva, que estrangulava a entrada da travessa que liga a Rua do Desterro (hoje, Coronel Silva Leal) à Rua de S. Miguel. No começo de 1946, a coincidência da decisão de construção do Teatro Micaelense, anunciada por Francisco Luís Tavares, director-delegado da Companhia de Navegação Carregadores Açorianos, e a preparação das comemorações do quarto centenário da elevação de Ponta Delgada à categoria de cidade levariam à inevitável associação de ideias - "Magnífica prenda de anos", chamava, no Açoriano Oriental, Manuel Ferreira: "Os Carregadores Açorianos, chamando a si o principal encargo desta grande aspiração citadina - com o patrocínio do Município, que indicará e cederá o terreno apropriado - dão-nos uma bela lição de amor à terra, comprovando a visão clara e o espírito empreendedor dos seus dirigentes, na pessoa do seu director-delegado." Seguia-se o apelo a que se não criassem entraves: "Urge agora remover as possíveis dificuldades oficiais ou burocráticas, urge meter imediatamente mãos à obra para que, ainda no decorrer de 1946, a ideia em marcha triunfante, de promessa esplendorosa, comece a converter-se em realidade magnífica e duradoira, como principesca prenda de anos oferecida à cidade nos festejos comemorativos do seu jubiloso 4º centenário." Ainda nesse ano de 1946, Francisco Luís Tavares, que ficaria para a história como o "Fundador" do Micaelense, em entrevista ao jornal Açores, explica e reflecte sobre a oportunidade e importância da construção do Teatro. Vale a pena recuperar aqui esse discurso, na primeira pessoa, do homem que foi o intérprete atento do desejo da população e motor da construção do Teatro Micaelense. A ideia da construção do teatro, por iniciativa da Companhia [Carregadores Açorianos], não surgiu nestes últimos dias, a propósito das festas centenárias de Ponta Delgada. Já os antigos administradores e meus saudosos amigos, Gustavo de Medeiros e Félix Amaral, acarinhavam entusiasticamente essa ideia e várias vezes o assunto foi aflorado, sem que fosse discutido a fundo ou se tomasse qualquer resolução. O projecto não estava ainda suficientemente amadurecido, outros problemas chamavam a atenção da Companhia por serem mais adequados à sua finalidade. No entanto, no ano passado, a questão foi novamente ventilada no seio do Conselho de Administração. Como consequência, tive curiosidade de colher mais informação sobre as mais recentes construções de casas de espectáculos no continente, principalmente o Coliseu do Porto, propriedade da Companhia de Seguros Garantia, e os teatros e cinemas de Vila Nova de Gaia e Alcobaça. Num dado momento, conversei demoradamente sobre este assunto com o meu velho amigo Dr. Luís Gomes. A confidência foi sempre mantida completamente. Sucedeu que, no entretanto, outras iniciativas, com o mesmo fim, vieram a público, apresentadas ou patrocinadas por personalidades influentes no nosso meio e com capacidade suficiente para meter ombros à empresa. Suponho mesmo que um certo sector de opinião pública era de parecer que à Câmara Municipal de Ponta Delgada devia caber semelhante iniciativa, o que era também uma solução. O assunto foi longamente discutido nos jornais, apareceram alvitres, houve as habituais críticas, e dissensões, quando se projectam melhoramentos citadinos, e muito naturalmente, o Conselho de Administração da Companhia pensou que a sua hora ainda não tinha soado. O essencial era construir o Teatro, fosse por quem fosse, e por quem desse garantias de levar a bom termo semelhante empresa. Em qualquer hipótese, o concurso da Companhia estaria assegurado, se lhe fosse solicitado, ou permitida a sua colaboração. Passaram-se meses. Uma vez ou outra, os jornais arriscavam uma notícia desalentada sobre a falta de um teatro em Ponta Delgada. Nada se divisava no horizonte. A questão caíra em verdadeiro estado de coma. Foi então que os entusiastas da ideia da Companhia tomar a iniciativa da construção do Teatro, abordaram novamente o assunto, desta vez com a mais emotiva firmeza. Chegara o momento, no seu parecer, de tomar uma deliberação, no espírito das comemorações centenárias, contribuindo a Companhia, cujos capitais são, e espero que continuem a ser, na sua quase totalidade, micaelenses, para a conversão em realidade, para a mais querida aspiração da nossa terra. O assunto foi ponderado pelo conselho e a resolução tomada e tornada pública no momento próprio. Depois, já sabe o que se passou na reunião presidida pelo Dr. Alberto Oliveira [Presidente da Câmara]. Não contava com uma tão forte e espontânea reacção por parte das personalidades presentes naquela sessão. Como já estou desabituado a estas manifestações, a forma vibrante com que a assembleia recebeu a proposta, o que depois se seguiu como demonstração de apreço, nessa reunião da Câmara Municipal, mexeu um pouco comigo, o meu pobre e velho coração batendo forte na ânsia de acompanhar o ritmo do entusiasmo que me cercava. De facto, a reacção de todos foi invulgar. O desejo da construção do Teatro da cidade está no coração de todos. Agora, só temos que aguardar. Logo que se receba resposta favorável da Câmara, que nos seja indicado o local da construção, com a garantia de cedência do respectivo terreno, imediatamente começaremos a trabalhar. Será chamado, a Ponta Delgada, um técnico especializado em construções teatrais, para realizar os necessários estudos, elaborar os desenhos e planos, que serão submetidos, em harmonia com as disposições legais, às instâncias competentes para sua apreciação. Uma vez realizado o acordo, serão feitos os cadernos de encargos, a obra será posta a concurso, com as modalidades que forem aconselhadas pela técnica e, se não surgirem dificuldades de ordem material ou burocrática, e tivermos a protecção e boa vontade de todas as instâncias superiores... Certamente que não temos ideias concretas e definidas sobre esse projecto... (tudo depende do arquitecto...) De qualquer forma a nossa ideia é que o edifício deve ser moderno, sem luxos de decoração interior ou exterior, mas concebido em linhas sóbrias e elegantes, onde todos se sintam bem, em que haja higiene e conforto em todos os lugares, mesmo nos mais baratos, porque tencionamos reservar o maior espaço possível às classes trabalhadoras para seu divertimento e educação. A lotação será de cerca de 1500 pessoas, o que julgamos suficiente para as necessidades do público e com possibilidade de defesa para as empresas teatrais. O Teatro deve, evidentemente ser apetrechado com todos os melhoramentos modernos, de forma a permitirem em amplo palco toda a espécie de espectáculos. Para dar execução a esse desiderato, será constituída uma empresa de que os "Carregadores Açorianos", subscreverão uma parte do capital, sendo a outra parte posta à disposição do público, dando assim ensejo a que possam concorrer para a construção do Teatro todos quantos o quiserem fazer dentro das suas possibilidades e no alto desejo de bem servirem a terra onde nasceram. A nova empresa será inteiramente independente da Companhia e terá a sua Administração própria e responsável perante os sócios, a quem prestará contas. Creio que não será levado a mal por ninguém esclarecer que esta questão da construção do Teatro não representa apenas uma questão sentimental de interesse cultural, mas tem de ser encarada também como um negócio, que pelo menos, não redunde em prejuízo para os que contribuíram com os seus capitais. Com vista à construção, constituiu-se então a Sociedade Particular Civil Teatro Micaelense, cujo Conselho de Administração é constituído por distintos membros da sociedade: António Botelho da Câmara Melo Cabral, Francisco Luís Tavares, Francisco Xavier Pacheco de Castro, Teotónio da Silveira Moniz, António Silveira da Rosa, Joaquim Cabral, José Machado Raposo de Medeiros e António de Medeiros Frazão Júnior, enquanto que, na mesma altura, se lança uma campanha na imprensa de aquisição de acções da nova sociedade. Destas, os Carregadores Açorianos subscrevem a maioria do capital social. Para o desenho do Teatro, foi escolhido o arquitecto Raul Rodrigues Lima, autor do Cine-Teatro Monumental, em Lisboa. O Micaelense será marcado, conforme descrição de Nestor de Sousa, pelos "cânones de orientação funcionalista, racional nos volumes e severa nas linhas, temperados pela intromissão de elementos de tradição nacional, que se entendiam seiscentistas, e que padronizavam a estética dos anos 40, numa forma de acomodada modernidade". Os cálculos foram feitos pelo engenheiro Ângelo Ramalheira, o som e a acústica são da responsabilidade do arquitecto Pedro Pardal Monteiro e a electrificação ficou a cargo da Sociedade Electrotécnica VATIO. A construção foi entregue aos engenheiros Luís Afonso Gomes e seu filho, António Gomes de Menezes. O processo de edificação não foi longo: tomada a decisão em Fevereiro de 1946, resolvidas as questões de localização depois, em Julho do ano seguinte já se tinham iniciado os trabalhos de demolição da construção monástica e, em Agosto, 160 trabalhadores procediam a terraplanagens e outros trabalhos iniciais, enquanto uma equipa de cabouqueiros dava por aparelhados os primeiros 32 mil cunhais. Antes do fim do ano já tinham sido transportadas para a obra 400 toneladas de cimento. Do Brasil, vieram 50 metros cúbicos de macacaúba e, em Janeiro de 1951, chegava a Ponta Delgada o desenhador-decorador Raul Simões, do Gabinete de Arquitectura de Rodrigues Lima, para orientar os acabamentos de interior. Antes, o estofador Artur Abelli Leitão viera tomar medidas para o pano de boca, reposteiros e sanefas em veludo cor de mel, encomendado em Amesterdão e executado em Lisboa, pela Casa Barbosa e Costa. De Lisboa, vieram também as cadeiras estofadas e, no Porto, a firma Custódio Fernandes Lino responsabilizou-se pelos lustres e apliques de cristal. Não se poupavam esforços para a construção do esperado Teatro, que, como explicara o fundador, se faria colhendo a experiência dos melhores teatros nacionais. De áreas amplas, o Teatro Micaelense aprimorava-se no Salão Nobre, decorado com colunas de mármore negro e pilares de marmorite e fortemente iluminado com três lustres de 2,36 metros de altura e 1,40 de diâmetro, com 16 lâmpadas na parte inferior; dez apliques, de 60 por 35 centímetros, com 3 lâmpadas nos braços, 13 nas colunas e 4 no bojo inferior, montados sobre espelhos de arestas polidas. A sala de espectáculos, em forma de leque, tinha capacidade para 1200 pessoas, que se distribuíam por dois pares de frisas de cena, junto do palco, com fosso de orquestra, primeiro balcão precedido de camarotes abertos, avançando sobre a plateia, e um segundo, elevando-se separadamente, atrás daquele. Para a exibição de cinema, o Teatro foi apetrechado com dupla aparelhagem Gaumont-Kallee. O empenho e esforço postos na construção do novo corpo do Teatro Micaelense eram equivalentes aos de há noventa anos atrás. Mas os custos eram outros: os mil reis eram agora milhares de contos. Estimado em 4 mil contos, numa primeira projecção, o custo do edifício ascendeu a cerca de 11 mil. Seis anos depois do início das obras, num local diferente e rodeado de ruas e construções novas, o Teatro Micaelense volta a viver, imponente.