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O cinema: estrelas no Micaelense

O cinema cedo se tornou uma das formas de expressão mais encantatórias para o público do Teatro Micaelense.

Em Abril de 1902, fazia-se a primeira apresentação do "maravilhoso cinematógrafo do senhor Porfírio Bessone de Medeiros, que tão apreciado foi em Lisboa". Chegava, com o início do século XX, o meio de comunicação que mudaria o mundo e a forma de o entender, pela exibição da imagem em movimento.

Em 1930, anunciavam-se "luxuosas superproduções, precedidas de grande reclame": na elegante sala de espectáculos do primeiro edifício do Teatro Micaelense exibiu-se uma super-produção alemã, da produtora Fox Europe, tendo como protagonistas os artistas Maddy Christians e W. Fuereter. Os Dois Irmãos era o título do filme, que "causou a melhor impressão na selecta assistência, que por completo enchia a elegante boite do Micaelense", lia-se no Açoriano Oriental. A semana seguia, e com uma casa à cunha, exibiram-se os filmes Vingança de Mulher com Norma Talmadge e Lew Cody e Um Homem Volúvel com Alphonse Fryland e Ellen Kurti, tendo ambos agradado. A estreia do filme Estranho Domínio esgotaria de novo a lotação. Entre estreias e reprises, fazia-se a programação cinematográfica, com sessões duas vezes por semana, e aplaudia-se a passagem do cinema mudo para o sonoro.

Será, contudo, a partir de 1951 que a exibição cinematográfica no Teatro Micaelense conhece grande fulgor.

O cinema, que incendiara o Teatro, há-de agora mantê-lo vivo por mais de duas décadas. Na altura, a época cinematográfica é inaugurada com a superprodução portuguesa Frei Luís de Sousa, um filme realizado por António Lopes Ribeiro, com Maria Sampaio, Raul de Carvalho, João Villaret, Barreto Poeira, Tomás Macedo e Maria Dulce. Antes do filme, exibiam-se dois documentários: o primeiro sobre o Palácio da Bolsa, o segundo com imagens de Lisboa. A bilheteira abria às 19 horas e os bilhetes podiam ser antecipadamente reservados pelo telefone 1000. Custavam então 5$00 os mais baratos, no 2º Balcão, ou o dobro, na Plateia. É a época de ouro do cinema americano e com ele concorre em qualidade assinalável o cinema europeu, igualmente exibido.

Em 1952, num dos programas do Teatro, dava-se conta do sucesso das sessões: "É já familiar o ambiente dos nossos espectáculos. Sente-se o conforto dos serões em que a cidade passeia nos intervalos, pelas salas, ou se absorve no desenrolar do celulóide". Relatava-se o aumento da frequência e prometia-se uma correspondência a esse movimento, aumentando o número de estreias, sem diminuir a qualidade de cada sessão. Corria-se para ver a bela Lúcia Bosé e Raf Vallone em Não Há Paz Entre as Oliveiras, ou os arrebatadores Errol Flynn e Janet Leigh em A Glória de Amar.

Na década de cinquenta, a sala do Micaelense recebe filmes de todo o mundo, com particular destaque, naturalmente, para o cinema americano e nacional. Num relato sumário, veja-se parte da programação cinematográfica de então, época em que os filmes se anunciavam como "filmes de categoria":

Em 1953, exibiu-se A Ambiciosa, com Bette Davis, A Madragoa, de Perdigão Queiroga, Um Americano em Paris, de Vincent Minnelli, com Gene Kelly, Não o Levarás Contigo, de Frank Capra, com James Stewart, Ivanhoe, com Elizabeth Taylor e Robert Taylor;

Em 1954, Duas Causas, de Henrique Campos, com Alves da Cunha, Artur Semedo, Mariana Vilar, Vasco Morgado, Eugénio Salvador e Assis Pacheco;

Em 1957, os filmes de maior sucesso são: Fúria de Viver com James Dean e realização de Nicholas Ray; Perdeu-se um Marido de Henrique Alves, com os já conhecidos António Silva, Laura Alves, Costinha, Josefina Silva, Virgílio Teixeira, Artur Semedo e Cármen Mendes;

Em 1958, Escrito no Vento com Rock Hudson e Lauren Bacall; O Gigante, de Douglas Sirk, com Rock Hudson, James Dean e Elizabeth Taylor; Dois Dias no Paraíso, de Artur Duarte, com Milú, Virgílio Teixeira, Costinha, Luís Tito, Humberto Madeira e Alves da Costa.

Na década de 60, o cinema português continua a trazer para S. Miguel o trabalho de grandes actores: Cantor e Bailarina, de Armando Miranda, com Domingues Marques, Manuel S. Carvalho, Berta Loran, Leónia Mendes; Chaimite, de Jorge Brum do Canto; Quando o Mar Galgou a Terra, de Henrique Campos, com Carlos Wallenstein, Curado Ribeiro e Paulo Renato, Os Três da Vida Airada, de Perdigão Queiroga, com António Silva, Milú, Eugénio Salvador, Vasco Morgado, Maria Luísa e Andrade e Silva...

De Hollywood chegam êxitos como: Luzes da Ribalta e Tempos Modernos, de Charlie Chaplin; Neves de Kilimanjaro, de Henry King, com Gregory Peck e Ava Gardner; O Inferno nas Alturas, de Nicholas Ray, com John Wayne ou Viva Zapata, com Marlon Brando. A representar o cinema italiano, Fernandel fazia rir com Ali Baba e os 40 Ladrões, ou com o D. Camilo, um dos filmes mais discutidos da época, cujo mérito galgou fronteiras, devido à sua crítica, satírica.

E apresentavam-se cinematizações de grandes obras, como O Ballet de Moscovo e Madame Butterfly, de peças de teatro, como o Júlio César de Shakespeare, ou de óperas, como a Aida de Verdi. Oferecia-se ainda a possibilidade de se apreciarem vozes como Frank Sinatra, Mario Lanza ou Liza Minneli.

O cinema trazia o encanto da sala escura e do brilho todo concentrado no grande ecrã, com os grandes artistas e as histórias empolgantes, da estreia e das reprises repetidas por matinés e sessões da noite, ou ainda em sessões especiais, com início marcado para a meia-noite. Era o espaço de liberdade e de sonho, mas também o espaço de informação, veiculada nos documentários de tipo informativo ou cultural, ou recreativo, com os indispensáveis desenhos animados, normalmente, do Walt Disney. Vivia-se, numa sala de cinema, com a emoção que o espectáculo impunha. Será isso o que explica a chamada de atenção que se imprimia nos programas do Teatro Micaelense, em 1952: "Uma das coisas mais desagradáveis para quem está no cinema é ouvir ler em voz alta as legendas do filme" - marcas dos excessos de emoção e/ou do elevado índice de analfabetismo que caracterizava o país e que obrigaria a que uns ajudassem outros na compreensão do filme.

Pelo meio, os intervalos ofereciam a possibilidade do contacto social. Viam-se amigos, trocavam-se opiniões, procurava adivinhar-se o desfecho do filme... Contrariava-se, ainda, a progressiva passivização do espectador, que acabará por afastá-lo das salas de espectáculo. O tempo era ainda de encantamento pela única janela que havia para o mundo, capaz de propor modelos de relação social e sexual diferentes dos que existiam.

O cinema fazia-se de tantos nomes: Henry Fonda, Tony Curtis, Gregory Peck, Fred Astaire, Gina Lollobrigida, Marilyn Monroe, Clark Gable, Sophia Loren, Peter Ustinov, Brigitte Bardot, Grace Kelly, James Cagney, Humphrey Bogart... Todos os nomes de que nos lembremos, que fizeram a sua história... e a história do nosso imaginário, que, às vezes, num golpe mágico, invadia a realidade. Era assim, quando, no dia seguinte, se contava e acrescentava o filme aos amigos que não tinham tido a sorte de o ver, ou quando, no quotidiano, se multiplicavam as aventuras em brincadeiras de criança.

E foi assim que, um dia, no Verão de 1963, o mesmo John Wayne que era o imbatível cowboy dos nossos sonhos, irrompeu pela cidade de Ponta Delgada. O actor saíra da tela. Não chegava no cavalo a que habituara o público, mas de barco, como convém numa ilha. De repente, o cinema era verdade, o ídolo ganhava corpo e esse corpo esteve aqui, no Teatro Micaelense: visitou-o, conversou com António Santos Figueira e confessou-se espantado por haver um teatro tão bonito numa ilha tão remota.

O cinema foi, desde sempre, objecto de censura e aprendeu a viver com isso mesmo, adaptando-se no momento da realização ao que pode ser aceite. João Bénard da Costa aponta os três terrenos sensíveis à censura: a cama, o poder e a vida/morte. Refere o director da Cinemateca Portuguesa que "a história da censura em Portugal está por fazer. Não começou, como muitos pensam e escrevem, com o 28 de Maio, nem sequer com uma muito citada lei de 1917, quando Portugal entrou na Primeira Guerra Mundial. Antes dela, e desde sempre, os espectáculos de cinema caíam sob a alçada de disposições censórias aplicáveis aos espectadores em geral e que, com variações regionais, funcionavam em todos os países, também por isso, ditos civilizados. A ditadura militar, depois o Estado Novo, pouco inovaram inicialmente neste campo e foram até relativamente liberais." A censura aos espectáculos e outras manifestações públicas, como a imprensa ou o teatro, agudiza-se a partir de 1936 e só a partir de Abril de 1974 os filmes deixam de ser exibidos com o célebre carimbo de "Visado Pela Comissão de Censura".

A partir desta data, regista-se o começo do decréscimo de espectadores na sala do Micaelense, como acontecia por todo o lado, com a mudança de hábitos a levar a uma preferência pela televisão, que é uma novidade nos Açores, em detrimento dos espectáculos públicos e dos encontros sociais. Contudo, simultaneamente, nasce uma nova vontade de ver cinema. O público será em menor número, mas mais interessado e exigente, nuns casos, meramente resistente, noutros. A década de oitenta assiste a um ligeiro recrudescimento do interesse pelo cinema que, agora, se queria ver na íntegra, sem os cortes a que estiveram sujeitos os filmes durante quarenta anos.

De entre os filmes exibidos, temos que, só no ano de 1981, pelo Micaelense passaram Cerromaior, de Luís Filipe Rocha, All That Jazz, de Bob Fosse, Cria Corvos, de Carlos Saura, A Força do Sexo Fraco, de Ingmar Bergman, Tess, de Roman Polanski, A Oeste Nada de Novo, de Delbert Mann, Gloria, de John Cassavetes, Recordações, de Woody Allen, Um Caso de Urgência, de Blake Edwards e Francesca, de Alberto Lattuada, entre muitos outros.

O maior apreço pelo cinema de um pequeno grupo de público, levou à criação, em Ponta Delgada, no princípio da década de 80, de um cine-clube, cujas sessões se realizavam no Teatro Micaelense. Com uma programação de autor, "exigente e intransigente", como a define Francisco Nunes, impulsionador do cine-clube, exibiram-se filmes japoneses ou de realizadores considerados difíceis, como Ingmar Bergman. Durante cerca de um ano, entre muitos outros, viu-se Alain Resnais, o Solaris de Tarkovski e Por Favor Não Me Mordam o Pescoço de Roman Polanski. As sessões tinham uma apresentação prévia, que ficava a cargo de comentaristas convidados.

Quando a casa de espectáculos se ressentia do público que a abandonara, o cinema ofereceu-lhe ainda grandes festas: a entrega dos prémios internacionais de cinema de animação, o Cartoon D'Or, realiza-se no Teatro Micaelense, na década de 80 e, já na de 90, a MAT - Mostra Atlântica de Televisão, promovida pela RTP/Açores, traz até ao Micaelense consagrados técnicos e realizadores de cinema. Em 2003, realiza-se a Mostra de Cinema de Animação - Macaquins. O Teatro Micaelense procurava então novos públicos e novos papéis, que passavam pela realização de eventos, conforme se verificará a partir de agora.