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Mais um Acto
Posfácio

"Aqueles que vêem alguma diferença entre a alma e o corpo não possuem nenhum dos dois."
Oscar Wilde

Exige o Teatro Micaelense que o encerramento do texto se faça abrindo para o futuro. É isso um teatro: um espaço em que se encerram conflitos e se abrem perspectivas. Procuro então uma imagem que sirva esta ideia. Uma metáfora que me dê um jogo permanente, inacabado, preparado para sobreviver, ele próprio, às diversas figuras que desempenham papéis principais no terreno do seu corpo. Preciso de densidade psicológica, dramática, de um sopro de vida.

Confiro toda a história e reconheço que é de uma paixão que trata; de uma paixão por uma Prima Donna imponente e caprichosa, que testa os sentimentos que lhe são devotados, que ora se adia ao tremor da terra, ora se imola pelo fogo, sucumbe à humidade, subtrai-se à partilha quando está descuidada e pouco atraente, para, logo de seguida, cativar, uma vez mais, capaz dos maiores golpes de encantamento, em fingidora sedução. Claro: terei uma Prima Donna a representar o Teatro Micaelense - a representar-se no Teatro Micaelense. É isso um teatro - um "fazedor de teatro, habituado a montar armadilhas desde muito novo".

Olho-lhe o corpo. Posso perfumá-lo dos odores dos tempos que viveu. Perscruto-lhe o camarim: no fundo de uma gaveta, uma bisnaga de Tokalon ressequido, resíduos de pó-de-arroz numa caixa oxidada, uma boquilha amarelecida pela nicotina e pelo tempo, postais carcomidos que desenham viagens de luxo e miséria. Tiro uma blusa acetinada em que se misturam cheiros de lavanda e naftalina. Gosto desta viagem no tempo, que os cheiros sempre conseguem.

Agora, devolvo-lhe o palco e a voz e a ostensão dos significados. Carrego-a de teatralidade, dessa "espessura de signos" em que se figura o homem nas suas tragédias e comédias. Apagam-se as luzes da plateia, acendem-se as do palco. Iluminada a área de representação, dá-se início ao jogo da identificação imprescindível à ilusão. No palco, junto à boca de cena, surge a Prima Donna. Renovada, sobre ela incidem todas as luzes, todos os olhos, de novo.

"Quem és tu?", ecoa uma voz saída do texto fundador do nosso teatro moderno. Quem és tu? Um ou dois? Um só, o Teatro. De verdade, por momentos... Qualquer que seja o corpo que se reinvente.

Está tudo preparado para que as coisas aconteçam, como é próprio dos Teatros.