As Duas Portas

4 Junho 2011, 00H00

A companhia de dança contemporânea Ballet Teatro Paz apresenta As Duas Portas, um espectáculo composto por dois bailados: O Jardim Secreto e A Porta Vermelha, ambos com direcção artística e coreografia de Milagres Paz. DAS MATIZES DO FOGO Tenta dizê-la em silêncio, essa cor. Repete-a, vezes sem conta, como se nada mais te restasse. Concentra-te em cada sílaba, em cada pausa. Puxa-a, mexe-lhe, crava-a dentro de ti, no pulsar tenso do coração. Ninguém sai dela ileso, dessa cor do fogo que antecipa as cinzas, do sol a pôr-se antes da longa noite das trevas, da madrugada que nos traz a esperança da luz. Ninguém regressa incólume dessa vertigem de sangue, de cravos e de rosas. A cor com que pintas um beijo, com que rasuras a pele amada, com que traças, em linhas firmes, as rotas da seiva que te corre nas veias e nos esconderijos da alma. Di-la devagarinho, sem pressa. Um corpo – o teu corpo. Outro corpo. A cor abrindo caminho por entre as flores, mostrando aos vossos passos as tonalidades do desejo. A mesma cor com que manchas o medo e a raiva. A mesma cor com que pintas os dias luminosos da paixão. A cor da boca – com que amas e com que feres. A cor do erro. Da liberdade e da proibição. A cor das cerejas de Junho, a cor da guerra e da vergonha. Pinta dessa cor a tua porta, dita-lhe o teu nome. Fá-la entrar contigo dentro de casa. Dá-lhe um manto onde possa poisar, dá-lhe os teus dedos para que possa pintar com eles o coração que procuras e não encontras. Diz-lhe do horror dos homens e das armas, diz-lhe da chama reconciliadora do amor, e de como nela vive tudo isso, o princípio e o fim, o ocaso e a aurora. Regressa depois com ela ao silêncio. Deixa-a adormecer lentamente no teu abraço. Oferece-lhe o teu colo para que durma um pouco, que está cansada, essa cor, exausta do mundo. Renata Correia Botelho

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