AMÁLIA - de Filipe La Féria

23 Setembro 2004, 00H00

História dum Espectáculo Um dia, em Janeiro de 1998, Amália foi ao Politeama ver "Maria Callas". No final do espectáculo, emocionada, desafiou-me: "Gostei muito, mas porque é que o Filipe não faz um espectáculo sobre mim?" Mas eu pouco sei de si, Amália ... "Leia a minha biografia escrita pelo Vítor Pavão dos Santos, encontrará lá a minha maneira de falar ... e depois com a sua fantasia..." Este breve encontro caiu quase no esquecimento até que o Dr. João Carlos Abreu, Secretário Regional do Turismo e da Cultura da Madeira, me convida para ir ao Funchal. Queria um grande espectáculo para a despedida do milénio em Dezembro de 1999. Falou-me dum musical sobre Churchill que no seu crepúsculo dos deuses tinha passado algum tempo na Madeira ... Porém, numa viagem à Ribeira Brava, ouvindo na rádio a voz de Amália, propus, de rompante, ao Dr. João Carlos: "E se fizéssemos um musical sobre Amália? João Carlos aderiu logo entusiasmado, e um mês depois encontramo-nos com Amália que, com amaliana ironia, comentou que só ela podia fazer o papel de Amália!.. Quando estava a meio da escrita do 1º acto, a notícia da morte súbita de Amália abalou o País, o que me levou a telefonar para o Dr. João Carlos propondo-lhe abandonar o nosso sonho, ao que o meu querido Amigo discordou de imediato dizendo que "Agora mais do que nunca, temos que fazer uma grande homenagem a Amália Rodrigues". Recordo-me, com ternura, as noites da Madeira ensaiando no Casino, escrevendo num pequeno hotel, vendo horas e horas de vídeos e filmes. Tínhamos apenas um mês para pormos o espectáculo de pé. Foi um mês intenso, vivido minuto a minuto, trabalhando mais de 18 horas por dia. Foi um espectáculo feito com o coração na boca. Lembro-me do primeiro ensaio em que levantei a marcação. No fim de cada cena todos os actores choravam. A morte tão recente de Amália, o encontro com a sua solidão, a vertigem da morte, a descoberta de um ser humano de excepção, duma inteligência luminosa feita de sensibilidade, percepção e de um talento desmedido que atravessa toda a nossa vida, o destino colectivo do nosso povo e de cada um de nós no que de mais profundo guardamos neste labirinto da saudade de ser português, despertou em todos os interpretes a paixão por Amália. Foi com amor e com dor que fizemos este espectáculo e com as palavras dos poetas que Amália sabia desvendar, abrindo com a sua voz insondáveis universos, dimensionando, na música marinheira da guitarra, o mais languido e trágico sentimento ocidental. A noite da estreia ficará para sempre na nossa memória como o reencontro de "Amália" com o seu público na ilha das flores que ela tanto amava. O êxito foi inesperado, multidões logo se precipitaram, em filas intermináveis, para a porta do Casino do Funchal, como meses depois aconteceria durante três anos, ininterruptamente, no Teatro Politeama. Mais que a encenação, mais que os interpretes ou o espectáculo, creio que o público vem sempre para reencontrar Amália. É Amália que o público vê e aplaude como se assistisse a um milagre. Talvez ao eterno milagre do Teatro. Depois veio o Porto, a Rua Passos Manuel com o transito interrompido por uma multidão que se apinhava junto ao Coliseu e que durante dois meses esgotou sempre as lotações. Do Porto seguimos para Orleans, Lyon e outras cidades francesas e finalmente Paris. No Zenith tivemos uma recepção triunfal, com mais de cinquenta mil espectadores em quatro noites inesquecíveis. Como em Genebra onde, no final do espectáculo, o público desenrolou bandeiras portuguesas. A apresentação do "Amália" em França e na Suíça deu-nos a noção do prestígio e da força que o nome de Amália Rodrigues tem no Mundo, muito além do que os portugueses, com a sua insegura desconfiança, ainda teimam em julgar. Amália, não só nos nossos emigrantes, mas sobretudo nos próprios franceses, permanece como uma inultrapassável Diva a que a saudade deu a dimensão de Mito. Após Paris "Amália" voltou ao Coliseu de Lisboa, o palco onde Amália mais gostava de cantar e o milagre repetiu-se como estou certo irá acontecer aqui no Casino Estoril onde Amália tanto gostava de "passar o ano a cantar" nos históricos "Reveillons" do Casino, lugar que ficará para sempre iluminado pela luz e pela voz de Amália, rosto e alma da nossa História, a mais profunda dor do nosso Fado. Filipe La Féria

Partilhar evento