texto original Nuno Costa Santos e João Pedro Porto
direção artística/encenação Miguel Damião
interpretação Emanuel Arada e Rui M. Silva
desenho de luz Rui Viveiros
cenografia Natália Melo
figurinos Isabel Roque
produção executiva Beatriz Silva Lavouras
fotografia Paulo Goulart
O espetáculo contará com audiodescrição, um recurso de acessibilidade que permite às pessoas com cegueira ou baixa visão acompanhar os elementos visuais da apresentação, como expressões corporais, movimentos dos intérpretes e outros elementos cénicos, contribuindo para uma compreensão mais completa da obra.
Num banco canónico da cidade sulina de Ponta Delgada, por ter sido nele sentado que se matou o grande poeta Antero com dois tiros de uma pistola, dois homens revelados irmãos, duas criaturas sem eira nem beira e saídas do nosso imaginário coletivo, típicas de qualquer tempo que por aqui passe, aguardam pelo futuro que não chega.
Os dois irmãos, trazem nos bolsos temas fundamentais da humanidade, como a família, o medo ou a vergonha, são também, de forma mais diretamente realista, uma representação artística dos “humanos zombies” que hoje se veem em Ponta Delgada, adictos de drogas sintéticas, personagens que transportam para onde vão, uma ideia de degradação humana, de precipício, de morte. São por isso, tragédias em movimento.
Ainda para mais, estão, muito significativamente, sentados onde se suicidou um poeta que sonhou com um mundo melhor e uma sociedade organizada de um modo mais justo, com atenção importante aos marginalizados. Há, no gesto do suicídio de Antero, um aparente movimento de desistência. Mas, é sempre importante lembrar que atrás dele sobrevive, numa placa, a palavra esperança.
Aqui entra a ilha e os seus abandonos, uma história arquipelágica feita de pobreza e emigração, uma incapacidade generalizada para lidar com aqueles frutos humanos que caem das árvores podres, sem préstimo. O que fazer com eles? O que fazer para que outros que aí venham não apodreçam outra vez à nascença?